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Era um dia ensolarado. Desses que qualquer um de nós não deixaria
de reparar.
Aquele céu azul e o aconchego harmônico das nuvens, que pareciam
querer chamar a atenção para suas formas estranhas; as mesmas
que quando crianças gostávamos de associar a bichinhos de nossa
lembrança... Caminhando em meio a esse devaneio confortador, defrontei-me
com dileto amigo, aparentando expressão tristonha e desgostosa, e que
apesar da sua tentativa de um súbito disfarce frente ao claro desalento,
não se conteve; e ao aproximar-se exclamou de forma incisiva:
- Não perdoarei jamais o que me fizeram! Se a pessoa soubesse o quanto
me atingiu, não ousaria sequer experimentar um “único contato”
com a minha vida, ainda que seja em um encontro casual...
Um pouco aturdido com o inesperado desabafo, retruquei:
- O que a pessoa lhe fez eu não sei, mas uma coisa eu posso lhe garantir
com muita segurança: ela está lhe possibilitando aprender a enriquecer
sua capacidade de enxergar a vida sobre mais ângulos...
- Que nada! Está me ensinando a esquecer tudo que esteja ligado a ela!
Com certeza, tudo que a envolve deve ser riscado de minha vida!
Tentando ainda acalmá-lo, persisti:
- Por acaso já pensou se com esta atitude sua memória pudesse
ser afetada indiretamente? Afinal, há registros e experiências
ligados à ela, que podem ser úteis em seu momento presente e,
porque não dizer, num futuro mais rico em lembranças e lucidez...
Aparentando relativa surpresa frente à esta colocação,
complementou com “ar reflexivo”.
- Nunca havia pensado por este ângulo... Realmente, apagar da lembrança,
pode prejudicar “toda boa lembrança” adquirida neste convívio
que considero desastroso... É duro admitir, mas que coisas boas eu tive...
não posso negar.
Aproveitando a atenuação de seu estado interior, encadeei:
- Perceba dileto amigo, que isto é um dos benefícios “escondidos”
do Perdão.
Sem poder lembrar (ou insistir em esquecer), você anula a capacidade de
reunir mais elementos que lhe ajudariam a ampliar a visão. Perdoar é
poder ver o fato dolorido com mais sutileza. É imediatamente transformá-lo
em aprendizado, e seguir avante com a satisfação de mais uma lição...
Quanto à pessoa causadora do infortúnio, entregue-a nas mãos
de Deus, e agradeça-lhe por colocá-la em seu caminho como instrumento
de ensino no “conceito de perdão”. Há muito mais no
PERDÃO do que compreender a falta do próximo; há iluminação
pelas lembranças, há fundamentalmente UM GESTO DE AMOR QUE AMPLIA
A VISÃO...
Texto – Revista nº 11 – Setembro/Outubro
2005