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DEPOIMENTOS ESPIRITUAIS – A VIDA CONTINUA...
“Quando lhe disse que iria até o barzinho com os amigos, estava muito longe de pensar que me achava em processo de desligamento da família. Achávamo-nos todos contentes e felizes com a união que nos tornava quase que uma só pessoa, pela mesma identificação total uns com os outros. Impossível para mim que tanta alegria pudesse prenunciar uma provação, como a que me afastou de casa e da vida. O nosso carro, de fato, parecia estar com alguma velocidade excedente, mas o Mauro era, aos nossos olhos, um condutor seguro. Em certos momentos, cheguei a observar com a minha alegria de rapaz que nossa máquina dava sinais de febre alta. Não se passaram muitos instantes e tive a queda fatal, sendo atirado à distância. A cabeça bateu com tanta força de encontro a um corpo sólido que não tive dúvidas quanto à gravidade do que nos ocorrera. Conquanto quisesse olhar para os amigos e verificar-lhes a situação, um estranho torpor me imobilizou. Quis movimentar os lábios e as mãos, entretanto, não me pareceram aptos a obedecer aos impulsos da vontade e da mente. Eu era eu mesmo, no tumulto que se fazia em torno de mim, no entanto, a força que me ligava às funções do corpo se me figurava cortada. A inércia tomou conta de mim, embora por dentro estivesse mantendo o desejo de me comunicar com o papai Laurentino, para dar-lhe ciência do acontecido. Amigos que não identifiquei me seguravam e me recomendavam despertar, mas como responder ao que me solicitavam? A boca estava imóvel e as mãos surgiam hirtas. Desejei tanto enviar-lhe algum recado, duas poucas palavras que fossem, entretanto, minhas forças me abandonaram rapidamente. Não tive idéia da morte e sim alimentei a suposição de que voltaria a casa para recuperar-me. Mas tudo foi inútil. Percebi vagamente que me conduziam a um hospital ou para algum consultório médico, onde, segundo minhas esperanças, despertaria para reconhecer-me em casa. Reconheci-me no resto de minhas energias e não me enganava. Um sono inexplicável se apossou de mim e não pude fugir daquela intimação ao repouso compulsório.
Quando acordei, ignorando o tempo que despendera no contratempo inesperado, vi ao meu lado uma senhora que parecia interessada em me auxiliar. Não pude responder apressadamente às perguntas que ela me fazia, por que não conseguia me locomover e falar de pronto, mas percebi que me amparava com carinho de mãe e entreguei-me, sem resistência, ao auxílio que suas mãos me estendiam. Foi então que fiquei sabendo que se tratava de minha avó Clotilde a me dispensar proteção. Imagine, mãezinha, a luta a que fui atirado, nas minhas inquietações sobre a vida e a morte. Com poucas frases minha avó me explicou que eu já conhecera muitas experiências, mas me faltava aquela da morte repentina. Lutei muito comigo mesmo para não chorar, mas mesmo assim o pranto me correu do coração para os olhos, ao lembrar-me de que seu carinho e o carinho de meu pai e das queridas irmãs, Flávia e Cláudia, haviam ficado para trás. Minha avó consolou-me com palavras de bondade, semelhante às suas, porque, segundo as informações dela, se me demorasse no corpo físico seria para viver numa cama, paralítico por muito tempo. Assim, ela e o avô Antonio Sichetti me guardariam convenientemente até que me vissem recuperado. Realmente, eu me restaurei, mas para uma vida diversa em que, no momento, procuro ser a esperança e o bom ânimo para o meu pai abatido. Estou ainda numa tarefa de me reanimar totalmente para ser o novo servidor do Bem que preciso ser. Encontro-me nesta fase, embora saiba que estou à frente do aniversário com o seu coração de mãe palpitando de saudade e de alegria.”
Fernando Querin Sichettti, desencarnado aos 18 anos em acidente de trânsito.
Extraido do livro “Lar-Oficina”, psicografado por Chico Xavier, edição IDEAL - Arq.DCD
Textos e contos – Revista 13 – maio/junho 2006