Irmão X – Psicografado por Nelson Moraes – Fonte: Revista Espírita Além da Vida
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Mande entrar a ré! – ordenou o juiz.
O Tribunal estava montado. A mulher, com passos tímidos, avançou
e acomodou-se no banco dos réus. O advogado da acusação
estava preparado; as perguntas, direcionadas à ré, fizeram-se
ouvir na sala da justiça:
- Qual o seu nome?
- Caridade – respondeu a interpelada.
- A senhora sabe que está sendo acusada de alimentar a ociosidade e a
preguiça dos indigentes da nossa cidade criando obstáculos para
que a municipalidade os eduque e os instrua nos conceitos de cidadania?
- Sim.
- A senhora reconhece que, com a sua ação, dita caridosa, tem
contribuído para o aumento da indigência sustentada?
- Não.
- Consta dos autos do processo que a senhora, na sua instituição,
atende pessoas de má vida, consideradas pela lei como contraventoras
e até criminosas, e que a senhora não faz distinção
entre estes e os cidadãos de bem. Confirma?
- Sim.
- Consta, ainda, que um cidadão honrado, respeitável membro da
nossa comunidade, tomado de boa-fé a procurou para pedir orientação
sobre um processo justo que deveria mover contra os herdeiros, de cuja herança
também tinha por direito, participar, e a senhora tentou dissuadi-lo
dessa ação, contrariando a Constituição do nosso
país que prevê os direitos do individuo. A senhora confirma?
- Sim.
- Meritíssimo, nada mais tenho a inquirir à acusada – declarou
o porta-voz da acusação.
Nesse momento o juiz convoca o advogado de defesa.
Prontamente ele se coloca diante da acusada e lhe indaga:
- A senhora tem na memória há quanto tempo se dedica a socorrer
as necessidades humanas?
- Não.
Voltando-se para os jurados, o causídico inicia a defesa:
- Sabemos, e isto é conhecido de todos nesta cidade e nas cidades vizinhas,
que a acusada, com o seu carinho e a sua dedicação, tem convertido
almas para o bem, principalmente aquelas que a procuraram na condição
de contraventores e criminosos, e que hoje são pessoas trabalhadoras
e honradas. Poderíamos citar aqui uma centena delas. Devo acrescentar
ainda que, para a municipalidade instruir nossos irmãos indigentes e
reintegrá-los à sociedade, é necessário que eles
estejam vivos! Não fosse o trabalho de amor, socorrendo com remédios,
alimentos e roupas a esses infelizes, quantos não teriam sucumbido de
fome e de frio? Não fosse ainda o calor humano que empresta a nossa irmã
aqui acusada a esses irmãos, quantos, no auge do desespero, não
teriam praticado o suicídio na fuga desesperada do sofrimento?
Quanto ao nobre cidadão que a procurou de boa fé, e cuja história
consta dos autos, saibam os senhores que, depois de gastar suas economias em
um processo do qual não tinha direito constituído, é hoje
um dos indigentes que sobreviveram da ação caridosa da nossa irmã
acusada.
Para a surpresa de todos, complementou sua defesa fazendo uma inspirada exaltação.
Com os braços estendidos na direção do banco dos réus,
afirmou:
Senhora Caridade! Dama do Evangelho! Rainha da Luz!
Procurei por você entre os ricos que distribuem as sobras, mas fui encontrá-la
entre os mendigos que repartem entre si as migalhas que os alimenta e os trapos
que os aquecem. Procurei por você nos grandes templos das religiões
do mundo, mas fui encontrá-la entre o povo, estendendo suas mãos
generosas, socorrendo a necessidade humana, oferecendo, além do pão,
o calor da fraternidade e do amor que reconforta o espírito.
Seguindo o seu rastro de luz, pude ver muitas feridas do corpo e da alma cicatrizando-se
ante a ação do seu inigualável amor.
E hoje você está aqui! Diante do tribunal da insensatez humana
sendo julgada por amar demais seus semelhantes. Sei que as leis que orientam
o seu coração estão além das leis mesquinhas dos
homens. Por isso, peço-lhe, perdoa-nos alma querida e justa, pois os
“ Homens ainda não sabem o que fazem.”
Encerrada a defesa, o júri absolveu a acusada por unanimidade.
Textos e contos / Revista Um Mundo Melhor nº 7 Nov/Dez 2004