Historinha que alguém me contou uma vez...

Um homem foi morto pela policia quando assaltava uma mercearia. Enquanto um furgão levava seu corpo para o necrotério, dois homens trajando finíssimos ternos brancos vieram buscar seu espírito.
Os dois homens de branco levaram o ladrão para um magnífico palacete construído em um pequeno planalto, a casa era lindíssima e muito confortável, o clima era agradável e a vista belíssima. De qualquer janela que ele olhasse a paisagem extasiava: O sol brilhando num céu azul, a grama muito verde e viçosa ia até onde os olhos pudessem ver e as flores lindas e frescas de um colorido incrível! Pássaros e borboletas rodeavam os jardins.
Os criados atendiam os seus mínimos desejos adivinhando seus pensamentos;
Comia seus pratos prediletos a qualquer hora do dia ou da noite; Quando queria estar com uma mulher apareciam-lhe uma dúzia para que ele pudesse escolher a que mais lhe agradasse; Se desejasse jogar cartas para passar o tempo não lhe faltavam bons parceiros mas ele nunca perdia um jogo sequer, fosse ele qual fosse.
Assim era a vida do ladrão morto no assalto, dia após dia. Mas, por mais que ele achasse interessante essa “boa vida” ele começava a sentir-se entediado já que não tinha trabalho com nada, nem nenhum tipo de dificuldade.
Um dia não agüentou mais a tremenda irritação que sentia por ficar confinado ali sendo tratado, com tantas deferências e tamanha prontidão, não tinha com quem ter uma boa briga, uma pequena discussão ou pelo menos, um motivo para reclamar de qualquer coisa que o contrariasse, então pediu que os homens que o tinham levado até ali viessem vê-lo. Como sempre, seu desejo foi prontamente atendido e os dois quiseram saber o que lhe faltava e como poderiam lhe proporcionar mais conforto. O ladrão disse-lhes que não precisava de nada mas gostaria de fazer-lhes uma pergunta, imediatamente os homens mostraram-se disponíveis. O ladrão com a cabeça entre as mãos começou a falar:
- Sempre fui uma criatura sem escrúpulos, arrogante e mesquinho, nunca medi esforços para ter satisfeita minha ambição de luxo e riqueza e como nunca gostei de trabalhar, enganava, trapaceava e roubava mesmo que fosse de um coitado que trabalhava duro para manter a família, tanto que levei um tiro tentando outro assalto. Podem então os senhores me dizer por que razão eu vim parar no céu?
Os dois homens olharam-se como se não tivessem entendido a pergunta até que um deles respondeu com uma outra pergunta:
- Mas quem lhe disse que está no céu? E o outro completou:
- Este aqui, meu senhor, é o mais terrível dos infernos!

Autor desconhecido/Colaboração e adaptação: Dorany Pecula
Textos e Contos / Revista Um Mundo Melhor nº 06 – Set/Out 2004